Fragmentos
sobre a Morte

“O que aconteceu com Charlie Raskus?

Está morto. Morreu. Causas naturais. Não era assim tão velho. Até os filhos da puta morrem. Essa é a única coisa boa que se pode dizer da morte - ela pega os filhos da puta também.” p. 164

“Patrimônio - Uma história real” de Philip Roth. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras. 

Sobre os mortos

“Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muitos daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar e dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério,    a gente costuma se dar conta de como são limitados e banais nossos pensamentos sobre o assunto. Ah, pode-se tentar conversar com o morto, caso você acredite que isso possa ser útil; pode-se começar, como fiz naquela manhã, dizendo: “Muito bem, mamãe…”, porém é difícil não pensar - mesmo que se tenha ido além da primeira fase - que você poderia, do mesmo modo, estar conversando com a coluna vertebral pendurada no consultório de algum osteopata. Você pode fazer promessas a eles, pô-los a par das últimas notícias, implorar que compreendam, que o desculpem ou que lhe deem seu amor - ou pode optar por uma abordagem oposta, mais efetiva, arrancando as ervas daninhas, ajeitando os cascalhos, passando o dedo pelas letras gravadas na lápide; pode até se abaixar e por as mãos diretamente sobre os vestígios deles - tocando a terra, tocando a terra deles, pode fechar os olhos e recordar-se de como eram quando ainda estavam ao seu lado. Mas nada se modifica com tais recordações, exceto que os mortos parecem ainda mais distantes e e fora do alcance do que estavam quando você dirigia o carro dez minutos antes. Se não há ninguém no cemitério para observá-lo, você pode fazer algumas coisas bem doidas a fim de conseguir que os mortos pareçam algo mais do que são. Mas, mesmo que você tenha êxito e se motive suficientemente para sentir a presença deles, ainda assim irá embora sem eles. O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós por enquanto, não fomos. Isso é fundamental e, embora inaceitável, bem fácil de compreender.” pp. 16-17

“Patrimônio - Uma história real” de Philip Roth. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras.